Pôster de videogame mixtape

[Análise] Mixtape: a aventura narrativa que transforma uma mixtape dos anos 90 em um videogame inesquecível

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Tempo de leitura: 8 minutos
Capa de videogame mixtape
Data de lançamento
07/05/2026
Desenvolvedor
Beethoven e Dinossauro
Gênero
Aventura narrativa
Plataformas
PC, PlayStation 5, Série Xbox, Nintendo Switch 2
Nossa pontuação
9.5

Há jogos que você termina e deixa a sensação de ter vivido uma maravilha, e Mixtape se enquadra nessa categoria. O novo trabalho de Beethoven & Dinosaur, estúdio por trás de The Artful Escape, é uma daquelas raridades que faz com que uma lista de músicas, um punhado de personagens bem escritos e apenas algumas horas de duração superem as produções dez vezes maiores. Tendo jogado do início ao fim, posso dizer honestamente que é repleto de momentos mágicos, daqueles que ficam na cabeça muito depois de ver os créditos.

Do que se trata: uma última noite antes de crescer

Mixtape nos coloca na pele de Stacy Rockford, uma adolescente obcecada por música que sonha em se mudar para Nova York para se tornar supervisora ​​musical. Ao lado dela estão Van Slater, a alma livre e criativa do trio, e Cassandra Morino, a mais rebelde dos três e a que menos quer que tudo acabe. A história se passa quase inteiramente durante um único dia no final dos anos 90: o último que os três passarão juntos antes que a vida adulta os separe (para sempre?), enquanto se preparam para uma última festa que funciona como um encerramento simbólico da adolescência.

O interessante é como o jogo conta essa história. Em vez de avançar linearmente, Mixtape salta constantemente entre o presente daquela última noite e memórias do passado que são ativadas pela interação com objetos específicos: uma foto, um troféu empoeirado, um bilhete amassado ou uma conversa. Cada um destes objectos desencadeia uma vinheta jogável que nos mostra um fragmento diferente da relação entre os três protagonistas, e é através desta acumulação de pequenos momentos, mais do que de uma grande trama com reviravoltas inesperadas, que o jogo constrói o vínculo entre eles e com quem está do outro lado do controlo. Não é uma história particularmente complexa, mas é tão bem gerida que nem precisa de o ser: cada silêncio, cada gesto e cada música que toca no momento certo acaba por pesar muito mais do que se esperaria.

Como jogar: pequenas cenas, grandes sensações

É aqui que o Mixtape gera mais discussão, e eu entendo o porquê. Não é um jogo que assenta num sistema central de mecânicas que se repete e se aprofunda ao longo do jogo, como ocorre na maioria das aventuras narrativas tradicionais. Em vez disso, propõe uma sucessão de sequências jogáveis ​​muito diferentes, cada uma projetada para acompanhar uma música e uma emoção específica. Em alguns trechos você anda de skate fazendo manobras pela cidade, em outros você joga beisebol em um terreno baldio, e há uma perseguição em carrinhos de supermercado que lembra diretamente o tipo de sequências caóticas típicas do cinema adolescente dos anos 80 e 90. Há também momentos muito mais estranhos e pessoais: uma cena estranha em que ambas as línguas são literalmente controladas durante um primeiro beijo, outra em que a câmera distorce enquanto guia uma van bastante agitada por uma locadora, e uma terceira em que caminhamos por um parque de diversões abandonado pisando em tudo em nosso caminho, quase como se fôssemos umKaijubolso.

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Nenhuma dessas sequências dura muito nem pretende ser um desafio mecânico sério. O controle sempre fica em segundo plano em relação à sensação que você busca transmitir, e essa é a chave para aproveitar o jogo: se você espera sistemas profundos e curvas de dificuldade, é fácil sair decepcionado, porque Mixtape não foi projetado para isso. O que consegue, e consegue com uma solvência que poucos jogos narrativos conseguem, é que cada uma dessas vinhetas pareça uma bela peça de cenário dentro de um todo maior, sem que o ritmo geral sofra. Há trechos de ação mais nítida e trechos completamente contemplativos, como simplesmente caminhar e conversar próximo a um lago isolado jogando pedras na água, e o jogo transita de um para o outro sem que a costura seja perceptível.

A música como verdadeira força motriz do jogo

Se há algo que separa Mixtape do resto das aventuras narrativas é o papel desempenhado pela trilha sonora. Não é um simples acompanhamento: cada cena está ancorada em uma música específica, supostamente escolhida pela própria Stacy, e essa música determina o ritmo, o tom e até a paleta visual do momento que está sendo tocado. A seleção musical inclui músicas de bandas como Devo, Smashing Pumpkins, Iggy Pop e Joy Division, entre muitas outras, e o jogo as utiliza com uma precisão raramente vista no meio: não como música de fundo, mas como mais um elemento narrativo, no mesmo nível do roteiro ou da atuação dos personagens.

A seção artística acompanha essa ideia com um direcionamento muito particular: animações desenhadas à mão, taxa de quadros reduzida que dá uma sensação quase de história em quadrinhos em movimento e sequências que combinam esses gráficos com imagens filmadas no estilo dos videoclipes da MTV da época. O resultado é uma estética que funciona quase como uma cápsula do tempo, pensada para quem viveu aqueles anos, mas perfeitamente agradável para quem não viveu, da mesma forma que as séries ambientadas naquela década conseguem transmitir essa nostalgia a gerações que não a conheceram em primeira mão.

Referências e influências: John Hughes, Jornada e o peso de crescer

É impossível falar de Mixtape sem citar o cinema de John Hughes como referência central. A estrutura de “um dia, uma cidade, três protagonistas incrivelmente bem escritos” baseia-se diretamente em filmes como The Breakfast Club, Sixteen Candles ou Ferris Bueller's Day Off, e a própria equipe de desenvolvimento a reconhece abertamente como um ponto de partida. Você também pode traçar a influência de outro clássico domaioridadeadolescente e suas perseguições urbanas, além de um certo espírito mais hooligan que lembra as comédias adolescentes independentes dos anos 90.

A nível jogável, a comparação que mais me convence é com Journey. Não porque sejam mecanicamente semelhantes, mas porque ambos os jogos pretendem gerar uma experiência emocional muito específica num tempo relativamente curto, priorizando a sensação sobre qualquer sistema. Há também ecos de Life is Strange na forma como trata as memórias e as relações entre adolescentes, embora Mixtape se distape deliberadamente das escolhas e ramificações que caracterizam este tipo de jogo: aqui não há decisões que mudem o rumo da história, porque o objectivo nunca foi oferecer finais diferentes mas sim contar esta história específica da melhor forma possível.

Minhas impressões

Eu entendo perfeitamente porque o Mixtape gerou tanta discussão. É um jogo curto, com seções jogáveis ​​que parecerão escassas para mais de um, e com protagonistas que à primeira vista podem não parecer simpáticos: três adolescentes abastados cujo maior problema é conseguir álcool para uma festa. Mas para mim isso faz exatamente parte da diversão: o jogo não precisa de dramas grandiosos para emocionar, pois constrói esses personagens com tanto cuidado, e os acompanha com uma seleção musical tão apurada, que acabei me apegando aos três muito antes do que esperava.

Há cenas específicas que ficaram comigo de uma forma que poucos jogos conseguem: o momento em que a música certa começa a tocar enquanto você desce uma ladeira de skate, a mistura de humor e melancolia da sequência do parque de diversões abandonado, ou aquele encerramento que faz uma música clássica dos anos oitenta acabar funcionando como a despedida perfeita dessa história. Não é um jogo para todos, e eu entendo isso, mas para quem gosta de aventuras narrativas que priorizam a atmosfera e a emoção em detrimento da complexidade mecânica, Mixtape é uma daquelas experiências apreciadas justamente pela honestidade e pela falta de pretensões. Raramente um jogo tão curto deixa uma sensação tão boa quando você o termina.

Pôster de videogame mixtape
[Análise] Mixtape: a aventura narrativa que transforma uma mixtape dos anos 90 em um videogame inesquecível
🥳 O melhor
O design das seções jogáveis, quase todas elas são pura magia
O design de som, incluindo a trilha sonora escolhida perfeitamente para cada cena
O desenvolvimento dos personagens
😕 Para melhorar
A rejogabilidade é, como em quase todos os jogos do gênero, praticamente zero
9.5
Inesquecível
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Alfonso Coronado Muñoz
Editor
2 dias

Conheço este jogo como “o jogo que não tem jogabilidade”. E pelo abismo entre as críticas dos jogadores e da imprensa.