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Há projetos que chegam com uma identidade tão marcada desde o primeiro trailer que já se sabe, quase sem reproduzi-los, que tipo de público vão falar diretamente ao coração. Celestial Return é um desses casos: um RPG narrativo cyberpunk nascido de umaKickstarterque superou em muito a sua meta de financiamento, desenvolvido por pessoas que vêm do mundo dos jogos narrativos de tabuleiro e que se propuseram a transferir essa profundidade para o formato de videogame. Depois de um atraso que o transferiu de maio para julho para resolver vários problemas técnicos, finalmente chegou ao Steam, e a experiência que deixa é tão interessante quanto irregular.
Netherveil City, uma cidade que apodrece em tempo real
A história se passa em Netherveil City, uma metrópole cyberpunk decadente onde a corrupção corporativa coexiste com fenômenos que nenhuma autoridade consegue explicar completamente. Jogamos Howard, um detetive falido que já fez parte do PID, grupo encarregado de lidar com os Abstratos: entidades que se movem entre o sonho e a realidade, e cuja natureza lembra bastante o conceito de horror cósmico que costuma aparecer na ficção Lovecraftiana, embora transferido para um contexto urbano e tecnológico. Há três anos, Howard liderou uma equipe de choque em uma incursão contra um desses Abstracts, episódio que a história vai revelando aos poucos e que acabou marcando tanto sua carreira quanto sua vida pessoal.
No presente, Howard investiga uma série de suicídios que começam a apresentar padrões estranhos demais para serem uma simples coincidência, acompanhados de um elemento tão curioso quanto memorável: uma rosa senciente que atua quase como sua consciência ou sua parceira de pesquisa. A partir daí, a trama se constrói como um clássico romance policial transportado para um futuro de néon e desesperança, com a particularidade de que boa parte do que Howard descobre, e como ele reage a isso, depende diretamente das decisões que se toma ao longo do jogo.
Howard não é um personagem fixo, ele é o resultado de suas decisões
Algo que diferencia Celestial Return de outros RPGs narrativos é que a personalidade de Howard não é escrita com antecedência, mas é construída jogo a jogo. O sistema é baseado em cinco traços centrais (Virtude, Percepção, Tolice, Raiva e Inteligência) que são fortalecidos ou enfraquecidos dependendo das decisões que tomamos em cada situação. Essas características, por sua vez, determinam quais opções de diálogo e interação estarão disponíveis posteriormente, da mesma forma que funciona o sistema de habilidades do jogo.Disco Elísio, uma das referências que o próprio estudo reconhece abertamente. O texto ocupa grande parte da tela, rolando em uma caixa de diálogo enquanto Howard viaja por Netherveil, e as decisões que tomamos não apenas mudam o que ele diz, mas também o tipo de pessoa que ele se torna à medida que o jogo avança.

Dados como balas, subornos e oxigênio
O coração jogável de Celestial Return está em seu sistema de dados, que funciona como uma moeda vital dentro da história. Ganhá-los, gastá-los ou perdê-los altera diretamente as oportunidades disponíveis: acumular muitos dados sem usá-los acaba fechando certos caminhos narrativos, enquanto gastá-los de forma imprudente pode nos deixar sem recursos justamente quando mais precisamos deles para subornar um contato, escapar de uma situação perigosa ou simplesmente sobreviver a um encontro com um dos Resumos. É um design que lembra o conceito de recursos limitados deCidadão Dorminhoco, outra das referências declaradas do estudo, embora aplicada com uma identidade própria que leva o jogador a pensar em cada lançamento como uma aposta real, e não como um simples procedimento de acaso.
O problema é que, além do conceito interessante, o número de sequências verdadeiramente jogáveis dentro daquela mecânica acaba sendo bastante limitado durante toda a duração da experiência. A sensação que deixa é a de um sistema com muito potencial que fica aquém no número de situações em que é realmente posto à prova, o que faz com que grande parte do peso acaba por recair sobre o texto e a narrativa sobre a própria jogabilidade. Isso pode ser um problema para alguns jogadores, mas se você for como eu, dará mais importância à história e à experiência geral de jogo.

Uma seção artística que não deve nada a ninguém
Se há algo em que Retorno Celestial não suscita discussão é a sua seção visual. O estúdio foi explícito desde o Kickstarter sobre suas referências: Blade Runner, Berserk e Akira são citados como influências diretas tanto narrativa quanto artisticamente, e o resultado final faz jus a essas comparações. O design combina silhuetas humanas com construções mecânicas abstratas, todas desenhadas à mão com uma precisão que mistura a tradição do mangá com a crueza mais marcante dos quadrinhos americanos, enquanto as sequências de exploração pela cidade recorrem a um estilo tridimensional que remete diretamente à primeira fase do PlayStation, gerando um contraste que, longe de parecer datado, reforça aquela sensação de decadência urbana tão típica do gênero cyberpunk. O estúdio destacou ainda que nenhum elemento da arte foi gerado com inteligência artificial, algo que pode ser percebido no cuidado e na coerência visual de cada cena.
A música acompanha essa identidade com uma seleção que combina jazz noir, techno, sonoridades industriais e post metal, um coquetel inusitado que funciona surpreendentemente bem para ambientar tanto os becos de Netherveil quanto os momentos mais introspectivos de Howard. A dobragem é escassa e está reservada quase exclusivamente às sequências de sonho, uma decisão que, longe de parecer uma limitação orçamental, acaba por reforçar o peso simbólico daquelas secções face ao resto do jogo, narrado quase inteiramente em texto.

Enorme potencial
Celestial Return é um daqueles jogos que deixa uma sensação agridoce. Por um lado, constrói uma atmosfera e uma identidade visual e sonora que poucos RPGs narrativos independentes conseguem alcançar, além de um sistema de decisão e dados com uma premissa realmente atrativa. Por outro lado, a duração total da experiência e o número limitado de momentos em que esse sistema de dados é verdadeiramente posto à prova fazem com que o jogo pareça, no seu lado mais mecânico, mais simples do que a sua própria premissa promete. A Metaphor Games claramente tem algo interessante em mãos, e o fato de já estar expandindo o universo Netherveil através de uma história em quadrinhoswebtoonsugere que isso está apenas começando. Sendo a primeira incursão de um novo estúdio no formato de videojogos, Celestial Return mais do que entrega a atmosfera, embora deixe a sensação de que o seu verdadeiro potencial jogável ainda não foi totalmente desenvolvido.



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