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Desde o momento em que mergulhei em Exhuma, o novo filme de terror do diretor Jang Jae-hyun, eu sabia que algo especial estava por vir. A história nos apresenta uma equipe pouco convencional: Hwa-rim, um poderoso xamã; Bong-gil, seu aprendiz; Kim Sang-deok, especialista em feng shui; e Yeong-geun, um empresário profissional. Juntos eles embarcam em uma missão aparentemente simples que logo se transforma em um pesadelo sobrenatural.
Tudo começa quando uma rica família coreano-americana procura a ajuda de Hwa-rim para investigar uma doença misteriosa que afeta seu bebê recém-nascido. O xamã rapidamente descobre que se trata de uma maldição conhecida como “Chamado do Túmulo”, causada pelo espírito vingativo de um ancestral.
O patriarca da família, Park Ji-yong, incumbe-os de realocar o túmulo de seu avô para apaziguar o espírito. No entanto, desde o início você sente que há algo sinistro em tudo isso. Sang-deok, o especialista em feng shui, fica relutante quando Ji-yong insiste que o corpo seja cremado junto com o caixão fechado, o que é incomum considerando sua localização remota, perto da fronteira norte-coreana.
Rituais que ganham vida na tela
O que mais me impressionou em Exhuma foi a forma como retratou oRituais xamânicos e cerimônias tradicionais coreanas. Estas cenas não são mero espetáculo; Eles são o coração do filme, carregados de uma autenticidade que faz a pele arrepiar.
A primeira grande cerimônia ocorre quando a equipe começa a escavar a tumba. Hwa-rim e Bong-gil realizam um elaborado ritual de proteção para evitar o despertar de forças do mal. A tensão é palpável enquanto Hwa-rim executa movimentos precisos e entoa invocações, com Bong-gil ajudando-a com a batida de um tambor ritual.
Fiquei surpreso ao saber que Kim Go-eun, a atriz que interpreta Hwa-rim, preparou-se extensivamente para essas cenas. Ele passou meses recebendo ensinamentos de um famoso xamã coreano, aprendendo gestos, movimentos e até memorizando sutras budistas. Esse compromisso se reflete na tela; Suas performances durante os rituais são hipnóticas e arrepiantes em seu realismo.
Uma cena que ficará na minha memória é quando Hwa-rim realiza uma cerimônia de invocação de alma. Empunhando um par de facas rituais, ele executa uma dança frenética num ato de adivinhação. A intensidade da atuação de Kim Go-eun, combinada com a fotografia atmosférica, cria um momento verdadeiramente perturbador.
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O horror irrompe
Conforme a trama avança, Exhuma dá voltas inesperadas. Ao limpar o local da escavação, um trabalhador decapita acidentalmente uma cobra com cabeça humana, desencadeando uma série de eventos sinistros. Este incidente marca o ponto em que as forças sobrenaturais começam a manifestar-se de uma forma mais direta e ameaçadora.
A tensão atinge seu ápice quando o caixão é armazenado temporariamente em um armazém próximo devido a uma chuva repentina. Um zelador local, tentado por rumores de um tesouro escondido, comete o erro fatal de abrir o caixão. Este ato liberta a entidade vingativa que é o avô de Ji-yong, um colaborador japonês durante a ocupação da Coreia.
Essa revelação adiciona uma camada de complexidade à história. A reviravolta narrativa permite ao filme explorar temas relacionados ao trauma histórico da Coreia e como os pecados do passado continuam a afetar as gerações atuais. O espírito começa a atacar sua própria linhagem, matando os pais de Ji-yong e o próprio Ji-yong em cenas de horror visceral.
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Um mistério mais profundo é revelado
Justamente quando você pensava que a história havia atingido o clímax, Exhuma dá uma guinada radical. Meses depois dos acontecimentos iniciais, a equipe descobre que há um segundo sepultamento no mesmo local: um caixão vertical de mais de dois metros de comprimento.
Esta revelação marca o início do que senti como um “segundo filme” dentro de Exhuma. O tom muda, tornando-se ainda mais sombrio e surreal. A equipe é obrigada a enfrentar forças sobrenaturais que vão além de suas experiências anteriores, conectando a história com elementos da mitologia japonesa e revelando uma conspiração que remonta à época da ocupação.
Uma das cenas que mais me chocou ocorre quando Bong-gil testemunha como uma criatura sobrenatural, mais tarde revelada como um oni (demônio da mitologia japonesa), massacra o sacerdote do templo local e um fazendeiro junto com seus porcos. A brutalidade da cena contrasta com o tom mais atmosférico do primeiro tempo, sinalizando que as regras do jogo mudaram drasticamente.

Além do terror superficial
À medida que a trama se desenrolava, percebi que Exhuma não é apenas um filme de terror convencional. O diretor Jang Jae-hyun usa o gênero como veículo para explorar temas mais profundos relacionados à história coreana, identidade nacional e trauma coletivo.
A figura do avô colaboracionista pareceu-me uma metáfora poderosa para as feridas ainda abertas deixadas pela ocupação japonesa. Seu espírito atormentado, incapaz de descansar devido a um enterro impróprio, reflete a forma como os pecados do passado continuam a assombrar a sociedade coreana moderna.
A descoberta do segundo caixão e a revelação de que ele contém os restos mortais de um samurai amaldiçoado ampliam esta metáfora histórica. É revelado que o monge "Gisune" mencionado no início do filme era na verdade um poderoso xamã japonês chamado Murayama Junji, conhecido como "A Raposa" (Kitsune). Esta reviravolta narrativa conecta a trama às tentativas do Japão de apagar a identidade cultural coreana durante a ocupação, simbolizada pelo amaldiçoado samurai enterrado em solo coreano.
O filme também explora a tensão entre as crenças tradicionais e a modernidade. Os quatro protagonistas, cada um com sua especialidade (xamanismo, feng shui, serviços funerários), representam diferentes aspectos da espiritualidade e tradições coreanas. A sua luta contra as forças sobrenaturais que ameaçam o presente pode ser interpretada como uma alegoria de como a Coreia do Sul navega a sua identidade cultural num mundo globalizado.
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Performances que dão vida ao terror
O elenco, formado por alguns dos atores mais respeitados da Coreia, consegue dar vida a personagens complexos e verossímeis, apesar das situações sobrenaturais em que se encontram.
Choi Min-sik brilha como o especialista em feng shui Kim Sang-deok. Sua presença na tela é magnética, trazendo seriedade a cada cena em que aparece. A atuação de Choi consegue transmitir a sabedoria e o ceticismo de um homem que já viu demais, mas ainda está impressionado com os acontecimentos do filme.
Kim Go-eun tem uma atuação poderosa como o xamã Hwa-rim. Sua dedicação ao aprendizado dos rituais reais resulta em cenas de surpreendente intensidade. Particularmente memorável é a sequência em que ele realiza um elaborado ritual para proteger os trabalhadores dos fantasmas.
Lee Do-hyun, em sua estreia no cinema, demonstra porque é considerado uma das estrelas em ascensão do cinema coreano. Sua interpretação de Bong-gil, o aprendiz do xamã, evolui ao longo do filme, especialmente quando seu personagem é possuído por forças sobrenaturais na segunda metade.
Yoo Hae-jin, mais conhecido por seus papéis cômicos, oferece um sutil alívio cômico como o agente funerário Yeong-geun. Sua presença ajuda a equilibrar os momentos mais intensos do filme sem tirar a seriedade.

Criando um mundo de pesadelo
Do ponto de vista técnico achei o Exhuma muito bom. A fotografia, de Lee Moe-gae, cria uma atmosfera opressiva e claustrofóbica mesmo nas cenas externas. Embora o CGI seja bastante perceptível em algumas cenas, não é algo que estrague a experiência.
O uso da iluminação é eficaz, brincando com as sombras e a escuridão para aumentar a sensação de ameaça constante. As cenas noturnas na montanha onde está localizado o túmulo são especialmente impressionantes, com a neblina e a escuridão criando uma atmosfera de pesadelo.
A maquiagem e os efeitos práticos merecem destaque especial. A decisão de evitar ao máximo os efeitos digitais em favor das técnicas tradicionais traz um realismo perturbador às aparições sobrenaturais. A criatura oni, em particular, é verdadeiramente aterrorizante em suas aparições breves, mas chocantes.
Uma viagem ao coração do medo coreano
Exhuma apresenta-se muito mais do que um simples filme de terror. É uma viagem fascinante às profundezas da cultura, história e crenças antigas coreanas. Através de suas cenas chocantes de rituais xamânicos e de seu enredo cheio de reviravoltas inesperadas, o filme nos mergulha em um mundo onde o sobrenatural e o terreno se entrelaçam de maneiras aterrorizantes e surpreendentes.
Se procura uma experiência de terror que vá além dos sustos superficiais, Exhuma é, sem dúvida, um filme que não deve perder. E o mesmo se você é fã da cultura oriental e até de animes: o filme dá a sensação de assistir a um bom live action de um excelente anime ou manhwa.
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Algumas curiosidades sobre Exhuma
- A atriz principal Kim Go-eun disse na entrevista que estava um pouco preocupada em ser possuída ou em outras coisas sobrenaturais que pudesse experimentar. Isso porque tudo o que ele fazia na cena (rezar, exorcizar, por exemplo) era exatamente a mesma coisa que os verdadeiros xamãs fariam. Mas um verdadeiro xamã, que ajudou a produzir o filme, garantiu-lhe que não precisava se preocupar com isso.
- A ideia de lançar espíritos malignos em porcos tem uma longa história e está presente em muitas culturas. Apenas como um exemplo, em Mateus 8:28-34 na Bíblia, Jesus expulsa demônios de dois homens possuídos e os joga em uma manada de porcos, que então pulam no mar.
- Segundo o diretor, os nomes dos personagens principais vêm de mártires patrióticos sul-coreanos que lutaram contra o domínio colonial japonês, nomeadamente Kim Sang-deok, Ko Young-geun, Lee Hwa-rim e Yoon Bong-gil.
- Os números das placas dos personagens principais estão relacionados aos movimentos de independência da Coreia do Sul.

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