Pôster da Hélice: Descida e Ascensão

[Análise] Hélice: Descida N Ascensão: Em branco, preto e uma dupla que você não sabe se te ajuda ou atrapalha

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Tempo de leitura: 8 minutos
Capa Helix: Descida N Subida
Data de lançamento
23/07/2026
Desenvolvedor
Mangusto Fodão
Gênero
Quebra-cabeças, plataformas
Plataformas
PC, Nintendo Switch
Nossa pontuação
7.5
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Badass Mongoose é um estúdio belga do qual, até muito recentemente, ninguém tinha muitas referências. Helix: Descent N Ascent é a sua primeira produção, e desde o primeiro minuto fica claro que não é uma estreia tímida: é um puzzle de plataformas envolto numa direcção artística a preto e branco tão marcante que por vezes nos faz esquecer que, por baixo dessa superfície, existe um sistema de habilidades combináveis ​​muito mais profundo do que se esperaria de um filme de estreia.

Acordar sem nome, sem lembranças e sem companhia

A premissa começa da forma mais despojada possível: interpretamos uma criatura com membros alongados e aparência quase alienígena que acorda sozinha em um mundo escuro, silencioso e aparentemente desabitado. Não existem diálogos que expliquem quem somos ou o que procuramos, e esta total ausência de texto explicativo mantém-se ao longo da aventura, obrigando-nos a interpretar cada símbolo do ambiente, cada fragmento de cenário em ruínas e cada objecto encontrado como mais uma pista para uma história que nunca é contada em palavras. Muito em breve na viagem surge uma segunda personagem: um duplo quase idêntico a nós, embora com as cores invertidas, que atravessa constantemente o caminho sem deixar bem claro se procura ajudar ou dificultar o progresso. Essa ambiguidade, sustentada durante boa parte do jogo, acabou por ser para mim um dos ganchos narrativos mais eficazes de toda a aventura, e o verdadeiro motor emocional por trás de um mundo que, à primeira vista, parece completamente vazio de vida.

O ambiente que envolve este par de opostos também não ajuda a dissipar dúvidas: entre a alvenaria desmoronada e as paisagens quase desérticas, monitores tremeluzentes e máquinas de arcade aparecem num estado de conservação curiosamente perfeito, um contraste que sugere os restos de uma civilização muito mais avançada do que o que o ambiente em ruínas sugere à primeira vista. O jogo não se apressa em explicar esta contradição e prefere que seja o próprio jogador quem constrói a sua própria leitura sobre o que foi este lugar e o que levou até ali esta figura solitária. É uma decisão narrativa arriscada, mas que me cativou particularmente desde o primeiro momento, porque cada novo símbolo encontrado parece uma peça genuína de um puzzle maior, e não uma simples decoração visual.

Um sistema de habilidades que se multiplica combinando

No nível jogável, Helix: Descent N Ascent é construído em torno de um punhado de habilidades que são desbloqueadas conforme você avança e que funcionam como peças do mesmo sistema modular, em vez de ferramentas isoladas. O jogo traz cinco habilidades principais em suas primeiras horas: um bloco invocável, um gancho de ligação, um drone, uma espécie de cápsula para capturar criaturas e um inversor capaz de alterar o próprio mundo. Cada um deles resolve, separadamente, um tipo de obstáculo específico, mas seu verdadeiro potencial só aparece quando combinados entre si: o mesmo bloco que serve para acionar um interruptor de chão pode se tornar uma plataforma flutuante na água, ou um ponto de ancoragem quando o gancho é destravado, gerando soluções que raramente parecem repetidas. O jogo em si promete 25 maneiras diferentes de combinar essas habilidades espalhadas por três níveis de complexidade, e jogando-o do início ao fim posso confirmar que essa promessa se cumpre: a curva de dificuldade adiciona camadas sem depender de mecânicas completamente novas o tempo todo, algo que é muito apreciado em um gênero onde é fácil cair na receita de simplesmente acumular ferramentas sem se aprofundar em nenhuma delas.

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A estrutura geral do mapa segue uma lógica de mundo interligado bastante comum no género metroidvania, embora aplicada com um ritmo mais lento: áreas que parecem fechadas num primeiro passeio voltam a abrir-se mais tarde graças a uma habilidade recém-adquirida, obrigando-o a revisitar espaços já conhecidos sob uma nova luz. Nem tudo funciona com a mesma precisão nesse aspecto: há certos acessos escondidos entre os detalhes do cenário que tive dificuldade em identificar a olho nu, e em alguns trechos acabei transformando a exploração do mapa central em um exercício de tentativa e erro muito menos satisfatório do que resolver os próprios quebra-cabeças dentro de cada sala.

Uma história em quadrinhos transformada em videogame

Se há um aspecto de Helix: Descent N Ascent que me parece diretamente indiscutível, é sua seção visual. Todo o jogo é construído com base numa estética monocromática desenhada à mão, com cenários 2D que combinam áreas totalmente ilustradas com outras que se dissolvem em linhas de esboço e espaços em branco, como se de um desenho ainda inacabado se tratasse. O próprio estúdio reconheceu abertamente as suas referências para construir essa identidade: a banda desenhada independente a preto e branco dos anos 80, a manga dos anos 90 e a tradição cómica franco-belga dos anos 70, uma mistura inusitada que acaba por dar a Helix uma textura visual que parece clássica e completamente própria. O uso simbólico do preto e branco não se limita à estética: a dualidade entre luz e escuridão perpassa boa parte da narrativa silenciosa do jogo, reforçada até pelo aparecimento explícito de um símbolo yin e yang em algum momento da aventura, caso fosse necessário enfatizar ainda mais essa ideia central.

O som acompanha esta proposta com uma banda sonora atmosférica que nunca procura impor-se à experiência, mas sim sustentar o tom contemplativo de cada cenário, algo perfeitamente consistente com uma aventura que privilegia a observação e a paciência sobre qualquer tipo de urgência jogável.

O que resta depois de terminar

Para além da embalagem visual, Helix: Descent N Ascent pretende falar de temas muito maiores do que a simples resolução de puzzles: identidade, solidão e a ligação ambígua entre duas versões opostas da mesma existência. Para mim, essa ambição narrativa é ao mesmo tempo a maior virtude e o maior risco do jogo. A primeira metade da aventura atinge um equilíbrio notável entre a introdução constante de novas ideias e uma atmosfera genuinamente evocativa, e essa foi facilmente a parte que mais gostei. Na reta final, porém, senti aquele ímpeto inicial começando a perder alguma coesão, com revelações que pareciam um pouco mais espalhadas do que o resto da jornada. Mesmo assim, o fato de o jogo depender tanto da inteligência do jogador, sem explicar demais ou abrir caminho com marcadores objetivos, faz com que cada quebra-cabeça resolvido pareça genuinamente merecido, e isso pesa muito na hora de avaliá-lo como um todo.

Com um preço de lançamento acessível e disponível tanto para PC como para Nintendo Switch, Helix: Descent N Ascent é uma daquelas propostas que deve ser abordada sabendo bem que tipo de experiência procura: não há combate, não há urgência, e boa parte da diversão depende da vontade de sentar e observar em vez de reagir. Para quem valoriza esse tipo de ritmo lento, envolto numa das direcções artísticas mais pessoais que vi num puzzle este ano, Badass Mongoose entrega uma estreia que, embora não consiga sustentar toda a sua ambição do início ao fim, deixa bem claro que há um estúdio com voz própria por detrás.

Pôster da Hélice: Descida e Ascensão
[Análise] Hélice: Descida N Ascensão: Em branco, preto e uma dupla que você não sabe se te ajuda ou atrapalha
🥳 O melhor
Claramente, seus gráficos são a melhor parte do jogo.
O design do quebra-cabeça em geral, embora no final "esvazie" um pouco
😕 Para melhorar
Não se sustenta bem ao longo do jogo, talvez as ideias tenham acabado chegando ao fim e precisaria de mais tempo de desenvolvimento para melhorá-lo
7.5
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